Água: Como enfrentar a crise hídrica

17 minute read

Atualizado em

Nós exploramos como continuar tendo alimentos em nossa mesa, mesmo com as mudanças climáticas, mas como garantir que todos tenham acesso à água limpa e segura? Apenas 3% da água na Terra é água doce, que é a água que usamos para beber, permanecermos limpos e irrigar as plantações.

Qual porcentagem da água doce global é usada para agricultura?


A maior parte da água doce é utilizada para fins agrícolas (70%) e industriais (19%). A água doce é um dos recursos naturais mais vitais do mundo, e mudanças extremas na sua disponibilidade têm graves impactos na saúde, no bem-estar das pessoas e também na vida selvagem.

Demanda global de água

Ao pensar nos impactos das mudanças climáticas – o aumento dos níveis do mar, as tempestades, inundações, secas e o derretimento das geleiras – você pode começar a reconhecê-los como parte de um tema relacionado à água, ou, mais cientificamente, "hidrológico".

Efeitos das mudanças climáticas nos eventos hidrológicos globais

Quais são os efeitos prováveis das mudanças climáticas no ciclo da água?


Como as mudanças climáticas afetam o ciclo da água e a disponibilidade de água doce?

A água doce é um recurso renovável, o que significa que ele se reabastece regularmente. Enquanto a escassez de água é impulsionada em grande parte por um rápido crescimento populacional, o clima também tem influência no abastecimento de água renovável.

Riscos para a disponibilidade de água doce

As mudanças climáticas irão provavelmente agravar a escassez de água existente, especialmente à medida que nossos níveis de aquecimento passarem de +2 para +4 °C. Na verdade, a cada grau de aquecimento global, um percentual adicional de 7% da população mundial poderia ver uma redução de 20% dos recursos hídricos renováveis.

Uma vez que 74% de todas as catástrofes naturais que ocorreram entre 2001 e 2018 estavam relacionadas à água, a escassez não é a nossa única preocupação. Isso porque se espera que as mudanças climáticas aumentem a probabilidade de eventos hidrológicos extremos, como secas, inundações e ciclones. O aumento do nível do mar é uma das maiores ameaças a que precisaremos nos adaptar. Em comparação com o período de 1986 a 2005, prevê-se que o nível médio global do mar aumente entre 0,43 a 0,84 m até 2100. Se optarmos pela não adaptação, a partir de 2100, o aumento do nível do mar poderá colocar de 0,2 a 4,6% da população mundial em risco de inundações anuais, e isso custará de 0,3 a 9,3% do PIB — serão dezenas de bilhões de dólares!

A princípio, isso pode parecer estranho — como podemos ter pouca e muita água ao mesmo tempo? Bem, esse problema ocorre porque, sob o efeito das mudanças climáticas, as as áreas úmidas se tornarão ainda mais úmidas; e as secas, ainda mais secas. Isso significa que a desproporção entre a demanda e a oferta de água doce ficará maior ao longo do tempo, juntamente com variações na frequência e gravidade dos eventos hidrológicos.

Como a frequência das inundações mudará?

Como deveríamos nos adaptar a essas mudanças e manter nosso abastecimento de água?

1. Gestão da água

Para gerir a água de forma sustentável, devemos repensar a origem da nossa água, como a transportamos e como a utilizamos no dia a dia.

Hoje em dia, muitos países dependem de redes de abastecimento de água para tratar e transportar água doce para onde ela é necessária. No entanto, se quisermos reduzir a nossa vulnerabilidade às mudanças climáticas, e levar água aos mais necessitados, teremos de atualizar e expandir esses sistemas. Por exemplo, ao simplesmente consertarmos tubulações de água com vazamentos poderemos evitar a perda de 20 a 30% da água tratada!

Consertar tubulações com vazamentos economizaria muita água

Em média, quantos litros de água são usados em um banho de 2 minutos?


Embora 20 litros possam soar muito, não é nada comparado aos 15 400 litros necessários para fazer 1 kg de carne. Para combater o desperdício de água, podemos nos adaptar conservando e reciclando água sempre que possível, tanto em contextos pessoais como industriais. Quando isso não for suficiente, as regiões propensas à seca podem precisar impor racionamentos na utilização de água, tal como o limite de 50 litros por dia para os residentes da Cidade do Cabo em 2018.

Quando se trata de gerenciar paisagens naturais, projetos como a “Room for the River" – Espaço para o Rio, em tradução livre – nos Países Baixos, já começaram a se adaptar ao aumento dos níveis dos rios por meio da construção de pontes mais elevadas, escavando canais de escoamento e, principalmente, permitindo que o rio transborde de forma controlada. Esses projetos de adaptação em grande escala necessitam de muito investimento que, geralmente, provém dos governos locais.

O financiamento também pode vir de um nível internacional. Na África Ocidental e no Sahel, mais de 20 países se uniram para criar a "Grande Muralha Verde" — um projeto de reflorestamento de 8 000 km de extensão liderado por produtores rurais. Tal projeto visa plantar mais vegetação e aumentar o valor ecológico do Sahel, enquanto combate o risco de seca prolongada. Para isso, os produtores rurais passaram a fazer covas para plantio em sequência, que coletam e armazenam água durante o período de estiagem. Isso não reduz apenas o impacto da escassez de água, mas também melhora a produtividade das colheitas e estimula o ambiente a se regenerar naturalmente[Reij.

Adaptando-se através do reflorestamento

Dessa forma, os governos desempenham um papel realmente importante no que se refere à adaptação. Dê uma olhada no gráfico abaixo – ele mapeia duas abordagens diferentes para a política de distribuição da água (ou seja, as regras que determinam quem pode utilizar os recursos hídricos e como, quando e onde isso acontece), e também o impacto que essas políticas podem ter no PIB em 2050:

As políticas governamentais poderiam nos ajudar na adaptação à escassez de água

2. Novas tecnologias e fontes de água

Até agora, temos discutido o acesso aos 3% da água doce do planeta. Mas e se pudéssemos utilizar a tecnologia para facilitar o acesso aos outros 97%?

Água doce

Como esses 97% correspondem à água muito salgada, precisamos retirar esse sal para poder utilizá-la. Fazemos isso através de um processo chamado "dessalinização". Apesar de a dessalinização diminuir nossa dependência dos recursos limitados de água doce, ela é um processo custoso e consome muita energia. Também devemos ser cautelosos com os outros problemas ambientais que a dessalinização traz. Por exemplo, as tubulações que absorvem águas marinhas também sugam a vida oceânica, e a salmoura deixada após o processo de dessalinização pode poluir os habitats marinhos. Portanto, a dessalinização só deve ser incentivada em zonas onde a água é realmente escassa, tal como em Israel, onde a usina de dessalinização de Sorek fornece 20% da demanda de água local.

Dessalinização

Quais destes métodos têm sido utilizados com sucesso para aumentar a disponibilidade de água?


A dessalinização não é a única solução tecnológica para a escassez de água. Outros métodos são ainda mais inusitados e maravilhosos, como a coleta de água de nevoeiros ou até mesmo o transporte de água através de icebergs vindos da Antártica. Embora ainda não tenhamos realmente aprendido a rebocar icebergs, os habitantes locais do norte da Índia estão criando suas próprias geleiras artificiais, chamadas “estupas de gelo”. Elas compensam o encolhimento das geleiras e a crescente inconstância das chuvas, proporcionando uma fonte alternativa de água.

Nós também podemos fazer uso de ferramentas tecnológicas de baixo custo para monitorar a água, além de fazer previsões e modelos de disponibilidade com exatidão. Essas ferramentas incluem desde mapas detalhados do clima e da geografia até sistemas de alerta precoce que nos atualizam sobre a probabilidade de inundações ou ciclones (SAP).

Prevendo desastres naturais.

Como podemos utilizar a tecnologia para ajudar nossas cidades a se adaptarem ao aumento do risco de inundação?


Conforme discutido anteriormente, a infraestrutura e o planejamento urbano são ferramentas muito importantes para a gestão da água. Além de atualizar as que já temos, a inovação tecnológica também será importante nesses setores. Exemplos variam desde uma pavimentação permeável, com poros que absorvem melhor a água de tempestades, até o aumento da altura de pontes e a construção de casas resistentes a tufões, cujos telhados são projetados para suportar ventos de até 180 km por hora.

Na China, os urbanistas deram um passo além e basicamente transformaram cidades inteiras em esponjas gigantes, que reutilizam ou absorvem 70% da água de tempestades. Isso é feito capturando água da chuva em jardins de telhado, áreas úmidas e canais especiais chamados biovaletas, antes de a redirecionar para fins domésticos ou agrícolas.

Cidades projetadas para absorver grandes quantidades de água excedente

3. Soluções baseadas na natureza

Ao longo dos anos, as respostas às ameaças hidrológicas vieram preferencialmente de proteções estruturais feitas pelo homem, como diques, barragens ou quebra-mares. Embora eficazes a curto prazo, elas podem ser caras. Os Países Baixos gastaram um total de $9 bilhões para lidar com o aumento do nível do mar entre 1960 e 2010. Alternativamente, podemos nos inspirar na natureza para encontrar soluções mais acessíveis e duradouras e que nos ajudem a lidar com eventos hidrológicos extremos.

Como os habitats costeiros (por exemplo, os recifes de corais, os manguezais e as ervas marinhas) se protegem contra catástrofes naturais?


A restauração dos habitats costeiros provou ser uma solução popular. Esses habitats não só fornecem proteção física contra catástrofes naturais (reduzindo a altura da onda em uma média de 35 a 71%), mas também absorvem e armazenam carbono, evitam a intrusão de água salgada nas fazendas, e abrigam uma rica diversidade de plantas e animais. Só os manguezais já valem mais de US$ 80 bilhões por ano, simplesmente pela sua capacidade de proteger as zonas costeiras (e os seus 18 milhões de habitantes) da inundação.

Apesar da perda de 35% dos manguezais no mundo entre 1980 e 2000, evidências continuam demonstrando que os benefícios da existência de florestas de mangues saudáveis são 10 vezes superiores aos custos de manutenção delas e 2 a 5 vezes mais baratos que as defesas costeiras feitas pelo homem.

Benefícios dos Manguezais

Além dos manguezais, as árvores geralmente são uma parte importante do ciclo hidrológico, pois elas aumentam a taxa de entrada da água da chuva no solo reduzindo, assim, o risco de inundação.

Na verdade, tudo, desde minúsculas larvas de insetos até castores e lobos, pode alterar a forma e o fluxo de sistemas fluviais! Essas espécies são praticamente engenheiros naturais. Embora os castores sejam principalmente conhecidos por reduzir os efeitos da erosão de rios e de inundações repentinas, nem todos estão satisfeitos com a sua reintrodução, pois sabe-se que eles cortam árvores demais e escavam muito o solo, se não forem controlados.

Engenheiros de ecossistemas podem ser encontrados em todos os lugares

Conclusão

A gestão sustentável das reservas de água precisa ser prioridade máxima se quisermos evitar futuras crises hídricas. Uma adaptação eficaz exigirá um grande investimento em infraestrutura e abastecimento de água sustentáveis, uma melhora na eficiência da utilização da água e um maior aproveitamento das novas tecnologias e informações. Isso provavelmente irá acontecer através de uma mistura de soluções artificiais e naturais, bem como de decisões regulatórias tomadas pelos órgãos de gestão da água.

Próximo Capítulo