Saúde humana: Tratando as causas, não os sintomas

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Resolver a crise climática pode ser uma das mais importantes oportunidades de saúde do século XXI! Neste capítulo, analisaremos como a saúde e as mudanças climáticas estão relacionadas e porque isso é importante.

Poluição em ambientes internos e saúde

Qual porcentagem da população mundial você acha que cozinha queimando diretamente madeira, carvão vegetal, esterco animal ou carvão mineral?


A fumaça e a fuligem produzidas quando esses combustíveis são utilizados para cozinhar em ambientes internos podem causar doenças cardíacas e respiratórias, além de câncer e infartos. Por causa dessas doenças, a poluição em ambientes internos é responsável por 4,3 milhões das mortes precoces todos os anos, em sua maioria em países em desenvolvimento, como é mostrado abaixo.

Parcela de óbitos em decorrência da poluição em ambientes internos, 2017.

Esses métodos tradicionais de cozinhar também contribuem em 2 a 5% para as emissões globais anuais de gases de efeito estufa, tanto pela própria queima dos combustíveis quanto pelas atividades necessárias para obtê-los.

Impactos dos métodos tradicionais de cozinhar

Porém, não é apenas a quantidade de emissões produzidas pelas práticas tradicionais de cozinhar que causa problemas. Os tipos de poluição gerada são problemáticos para o clima e para nossa saúde. Fogueiras e fornos ineficientes geralmente têm uma má circulação de ar ao seu redor, levando à produção de "carbono negro" (o principal componente da fuligem).

Então, o quanto o carbono negro é um problema para o meio ambiente?

Carbono negro

Mesmo que exista em menor quantidade na atmosfera do que o CO₂, atualmente, o carbono negro é o segundo maior contribuinte para o aquecimento global, pois ele absorve muito calor. Entretanto, diferente do CO₂, o carbono negro é rapidamente removido da atmosfera pela chuva. Enquanto o CO₂ continua a causar efeitos por centenas de anos após ser emitido, a contribuição do carbono negro ao aquecimento global cessaria rapidamente se parássemos de produzi-lo.

Isso torna as soluções para a redução das emissões de carbono negro particularmente promissoras. Se todas as emissões de carbono negro parassem, os efeitos seriam vistos em questão de décadas!

O que aconteceria se parássemos de emitir carbono negro amanhã?

Fornos otimizados, alimentados por energia solar ou pela queima de combustíveis, podem cessar as emissões em até 95% e ainda salvar vidas. Ao diminuir a quantidade de carbono negro e outros poluentes, estima-se que 150 milhões de fornos limpos podem ajudar a evitar 2,2 milhões de mortes precoces na Índia.

Há ainda mais benefícios! Fornos otimizados usam menos combustíveis, o que reduz o tempo que as pessoas gastam coletando madeira – uma tarefa fisicamente exigente e em geral arriscada, especialmente para mulheres desacompanhadas.

Poluição em ambientes externos causada pelo transporte

Impedir a poluição em ambiente internos é apenas parte da história. O transporte é uma das principais fontes de poluição em ambientes externos e contribuiu em 16% para as emissões globais de gases de efeito estufa em 2014. Estima-se ainda que as emissões por transporte tenham contribuído para 385 000 mortes precoces em 2015.

Poluição em ambientes externos

A troca por carros elétricos é uma possível solução, pois eles geram menos poluição nas estradas, porém, não resolvem outros problemas causados por carros, como o tráfego. Além disso, apenas reduzem as emissões se for usada energia renovável para gerar a eletricidade.

Por outro lado, usar o transporte público, como ônibus, metrôs e trens, reduz a poluição por passageiro e o tráfego. Isso acontece principalmente se os veículos estiverem cheios de passageiros e forem movidos a combustíveis limpos ou eletricidade.

As formas ativas de transporte são ainda melhores, como caminhadas e pedaladas, que tem o maior impacto positivo tanto na saúde quanto na solução das mudanças climáticas.

Soluções no transporte para as mudanças climáticas e os problemas de saúde

As caminhadas e pedaladas reduzem as emissões, melhoram a qualidade do ar local e ajudam a prevenir doenças relacionadas a estilos de vida sedentários.

Os governos podem encorajar as pessoas a caminhar e a pedalar mais através de estratégias econômicas, como com a melhoria dos pavimentos e das ciclovias.

Por que deveríamos relacionar saúde e mudanças climáticas?

A Organização Mundial de Saúde estima que a poluição atmosférica causa uma em cada oito mortes, além de contribuir para as mudanças climáticas.

Óbitos causados pela poluição atmosférica

Os políticos tendem a evitar medidas rígidas para as mudanças climáticas devido aos custos aparentes e porque os benefícios climáticos para seus países são sentidos somente se vários países fizerem o mesmo.

Por outro lado, a população do país que reduz a poluição atmosférica vinda de carros e fornos sente rapidamente os benefícios na saúde.

Dessa forma, pensar nos benefícios imediatos para a saúde a partir da redução da poluição atmosférica pode ajudar a persuadir políticos a tomarem ações quanto às emissões. Essas medidas visam melhorar a saúde pública, mas elas também combatem as mudanças climáticas. Ganhos em todos os sentidos!

Vitória: Mudanças climáticas e saúde

Atingir os objetivos propostos pelo Acordo de Paris de 2016 sobre mudanças climáticas poderia salvar mais de um milhão de vítimas da poluição atmosférica por ano até 2050. Além disso, essas medidas trariam inúmeras vantagens ao melhorarem a saúde da população, como o aumento da produtividade de trabalhadores saudáveis e a redução de gastos em cuidados médicos.

Para cada dólar gasto em medidas para atingir os objetivos do Acordo de Paris, quantos dólares seriam ganhos em benefícios para a saúde?


Conservando a natureza para nossa saúde

Ponderar sobre o clima juntamente com a saúde humana poderia também persuadir políticos a reduzirem o desmatamento.

A derrubada de árvores não apenas resulta em emissões de carbono, mas também pode levar a mais surtos de doenças. Por quê? 75% das novas doenças infecciosas em humanos vêm de animais – as chamadas "zoonoses".

As zoonoses são doenças transmitidas de animais para humanos

Quando florestas são derrubadas para a construção de estradas, os humanos passam a ter um contato muito próximo com os animais que moram ali. Isso significa que as doenças estão mais propensas a se espalharem entre pessoas e animais.

O desmatamento leva as pessoas a terem um contato mais próximo com animais, aumentando as chances de propagação de doenças

Nos últimos anos, os impactos antropogênicos na natureza têm sido relacionados a inúmeras epidemias e pandemias virais. Dentre elas, temos a COVID-19 (2019 até os dias de hoje), Zika (2015 a 2019) e SARS (2002 a 2004). Surtos de ebola e malária também estão ligados ao desmatamento.

Impedir a perda de florestas poderia reduzir as probabilidades de futuros surtos de doenças, ao mesmo tempo em que limitaria as emissões de carbono.

Esse não é o único motivo relacionado à saúde para conservar a natureza. Um crescente conjunto de evidências sugere que a experiência na natureza pode ter muitos benefícios para nosso bem-estar físico e mental. Ou seja, estar próximo de plantas e animais nos deixa mais felizes!

Em um estudo, cientistas descobriram que pacientes que podiam ver áreas verdes de suas janelas no hospital se recuperavam mais rapidamente de suas cirurgias e utilizavam menos analgésicos do que pacientes em situação similar que não tinham a mesma vista!

Dieta e Saúde

O que nós comemos tem um impacto não apenas na nossa saúde, mas na saúde do planeta.

Atualmente, produzimos comida o suficiente para alimentar a população global, porém a distribuição não é igualitária. 11% da população global é subnutrida, o que significa que eles não têm alimento suficiente para sustentar uma vida normal e saudável. Ao mesmo tempo, em 2017, 8% dos óbitos globais ocorreram devido à obesidade.

O que causa a obesidade?


Consumir muita carne (particularmente carne vermelha e processada), alimentos processados e bebidas açucaradas aumentam a probabilidade de obesidade, além de diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer.

Esse tipo de dieta também é extremamente maléfico para o meio ambiente! Muito mais emissões são liberadas na produção de carne do que de alimentos de origem vegetal, porque a energia se perde em níveis superiores da cadeia alimentar. Além disso, bovinos e ovinos são os maiores contribuintes para as emissões globais de metano, um gás de efeito estufa mais potente que o CO₂. Os impactos ambientais de consumir carnes serão discutidos com mais detalhes no curso Alimentos e Agropecuária.

Existem acordos de diretrizes internacionais sobre alimentação saudável. Essas recomendações apenas contemplam os resultados saudáveis das dietas e sugerem o consumo de mais alimentos de origem vegetal e de menos carne e açúcar. Essa dieta é muito melhor para o meio ambiente!

Se as pessoas seguissem as diretrizes existentes, as emissões de gases de efeito estufa provenientes das dietas seriam reduzidas em 29%.

Pesquisas recentes sugerem que essas diretrizes deveriam ser atualizadas para recomendar ainda menos alimentos processados e carnes. Para saber mais sobre alimentos e o meio ambiente, dê uma olhada no nosso curso "Alimentos e Agropecuária"!

Se todos tivessem uma dieta saudável…

Conclusão

Dietas saudáveis, fornos limpos e escolhas de transportes são apenas três medidas que podemos tomar para melhorar a saúde global e desacelerar as mudanças climáticas ao mesmo tempo. Compreender e aproveitar ao máximo essas relações podem motivar políticos a tomarem ações rápidas e efetivas quanto à crise climática.

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