Política climática: O que o mundo poderia fazer

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Você provavelmente já leu nos nossos cursos sobre como a ciência pode oferecer soluções para as mudanças climáticas, mas você já pensou sobre o papel da política mundial na resolução da crise climática? Este curso examinará os instrumentos que a política nos proporciona e como podemos utilizá-los como auxílio na luta contra as alterações climáticas.

Vamos começar com uma história de êxito para a política climática mundial — o Protocolo de Montreal — para entender como a política climática tem o potencial para fazer a diferença.

O que é o Protocolo de Montreal?

Em 1989, um tratado internacional chamado Protocolo de Montreal entrou em vigor. Esse acordo foi realizado para reduzir o uso de substâncias destruidoras da camada de ozônio presentes em aerossóis e refrigerantes.

A camada de ozônio é uma camada de gases na alta atmosfera que protege a Terra contra a radiação ultravioleta (UV) nociva. No entanto, nos anos 70, cientistas descobriram que as ações humanas estavam deteriorando esse importante "escudo".

Eles descobriram que as substâncias químicas usadas nos aerossóis e refrigerantes também estavam destruindo a camada de ozônio porque, à medida que subiam na estratosfera, eram atingidas pela radiação UV do Sol, fazendo com que liberassem partículas de cloro reativas com as quais reagiam e destruíam, de fato, o ozônio. O Protocolo de Montreal foi, dessa forma, implementado para proteger essa camada, eliminando gradualmente a produção e o consumo dessas substâncias, denominadas, destruidoras da camada de ozônio.

Quanto o consumo global de substâncias que destroem a camada de ozônio diminuiu entre 1986 e 2016?


1986 foi o ano anterior à adoção do Protocolo de Montreal (firmado posteriormente em 1989). Essa redução de substâncias destruidoras da camada de ozônio também levou à redução das emissões de gases de efeito estufa, porque muitas dessas substâncias químicas também são gases, desse tipo, extremamente fortes..

Em relação ao CO₂, as piores substâncias destruidoras da camada de ozônio são quantas vezes mais eficazes no aprisionamento de calor na nossa atmosfera?


De fato, as substâncias que destroem a camada de ozônio podem ser mais de 10 000 vezes mais eficazes em aprisionar calor na atmosfera do que o dióxido de carbono!

Dê uma olhada na parte azul do gráfico abaixo, que fornece uma estimativa das emissões de gases de efeito estufa evitadas devido ao Protocolo de Montreal:

O impacto do Protocolo de Montreal nas emissões de substâncias destruidoras da camada de ozônio (SDOs)

Sem o Protocolo de Montreal, o empobrecimento da camada de ozônio teria aumentado dez vezes até 2050 em comparação com os níveis atuais, e o câncer de pele — causado pelo excesso de exposição aos raios UV nocivos do Sol — seria mais comum. Também estamos começando a ver sinais de recuperação no buraco da camada de ozônio na Antártida! Contudo, indícios recentes sugerem que certas emissões de SDOs estão aumentando novamente.

Por que você acha que o Protocolo de Montreal foi tão bem sucedido? Selecione todas as alternativas corretas.


Não foram somente países e cientistas que fizeram do Protocolo de Montreal um grande sucesso — foi um esforço coletivo! Ao participar das conferências internacionais que resultaram no protocolo, o setor privado (a parte da economia que abrange empresas com fins lucrativos que não são propriedade ou administradas pelo governo) conseguiu se envolver em discussões e alcançar compromissos com os governos, os quais o incentivaram a desenvolver formas criativas de utilização de substâncias químicas alternativas menos prejudiciais para a camada de ozônio nos seus produtos.

Organizações não governamentais (ONGs) também desempenharam um papel extremamente importante através de campanhas de sensibilização.

O Protocolo de Montreal foi um trabalho em equipe

O Protocolo de Montreal é considerado um dos acordos ambientais mais bem-sucedidos. Ele demonstra que a política climática mundial tem potencial para fazer a diferença quando se trata de mudanças climáticas! Contudo, é importante observar que os dois problemas são fundamentalmente diferentes. As alterações climáticas são um problema muito mais difícil de resolver do que a destruição da camada de ozônio.

Então, por que não abordamos outras questões climáticas da mesma forma? Infelizmente, lidar com emissões de gases de efeito estufa de forma mais abrangente é diferente por três motivos principais:

  • Foi relativamente fácil de enfrentar o problema da camada de ozônio, em específico, porque menos países tinham um interesse financeiro em jogo.
  • Embora sejam necessárias somente pequenas alterações nos processos industriais para reduzir alguns tipos de emissões, reduzir todas as emissões de gases de efeito estufa requer que a economia global seja completamente reinventada. Isso porque, os combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás) continuam a ser predominantes no fornecimento da demanda energética global..
  • É realmente difícil distribuir de forma justa o fardo de lidar com as mudanças climáticas entre diferentes países..

Historicamente, países de alta renda emitiram mais do que países de baixa e média renda.

Entre 1850 e 2002, quantas emissões a mais foram liberadas pelos países de alta renda comparado aos de baixa e média renda?


As emissões também aumentaram em países de baixa e média renda, conforme buscavam aumentar o padrão de vida dos seus cidadãos. Isso levanta uma grande dúvida: se, no passado, os países ricos puderam aumentar a qualidade de vida da sua população através do incremento das emissões, por que a mesma oportunidade deveria ser negada aos países em desenvolvimento?

Emissões de CO₂ dos países em desenvolvimento e desenvolvidos de 1850 a 2011

Por que a política tem que estar envolvida na solução das mudanças climáticas?

Cientistas podem descobrir soluções inovadoras para as alterações climáticas, mas não podem forçar a sua implementação — é por isso que precisamos que a política ponha a ciência em prática! Ou seja, os cientistas apresentam os fatos; os políticos tomam decisões baseadas nesses fatos.

Cientistas e políticos precisam trabalhar em conjunto

Às vezes, os políticos utilizam leis como um mecanismo para alcançar seus objetivos — as leis envolvem regras que indicam como devemos agir.

A política, então, traça as direções e ações que os políticos querem seguir perante um problema, e, por vezes, recorrem às leis para implementá-las. Ao criar normas, os políticos levam em conta muitos fatores, tais como a economia e a ciência.

Mas, transformar a ciência climática em política e legislação nem sempre é fácil por três motivos:

  • A ciência climática precisa ser clara e compreensível para que os decisores políticos locais possam avaliar de forma eficaz as melhores evidências disponíveis, a fim de tomar decisões bem informadas.
  • Às vezes, não há consenso político sobre o nível e tipo de ação necessária, o que — frequentemente — dificulta os acordos políticos e, portanto, a sua implementação.
  • Como os problemas ambientais estão se tornando progressivamente mais complexos e incertos, está ficando cada vez mais difícil distinguir entre o papel da ciência e da política.

Uma organização que tenta fornecer aos políticos dados científicos precisos é o IPCC (sigla em inglês). O que significa IPCC?


O IPCC é o orgão da Organização das Nações Unidas (ONU) que fornece aos decisores políticos avaliações científicas regulares sobre mudanças climáticas, suas implicações e potenciais riscos futuros, assim como sugestões de adaptação e mitigação. Isso significa que o IPCC não leva em consideração somente a ciência, mas também as possíveis respostas à ciência ponderando opções de adaptação e mitigação.

Três principais áreas que o IPCC considera para seus relatórios

Embora o IPCC se descreva como um órgão neutro que proporciona recursos de apoio a políticos em vez de ditar políticas, seu propósito é envolver os governos na tomada de decisões sobre o clima, o que pode ser considerado um objetivo político por si só. Por exemplo, os relatórios do IPCC são importantes para as negociações internacionais sobre as alterações climáticas.

Os relatórios do IPCC também são apoiados pelos governos membros do IPCC. Ainda que a ciência tenha justificado a cooperação política internacional para enfrentar as mudanças climáticas, essa cooperação também ajudou a conferir legitimidade à ciência das alterações climáticas.

Por que as nações não conseguem, sozinhas, solucionar a questão das mudanças climáticas?

Política internacional não é o único tipo de política – também existem políticas internas!

Ao que "política interna" se refere nesse contexto?


Ainda que a política interna seja importante para direcionar esforços de combate às alterações climáticas, ela não é suficiente por si só porque o problema das mudanças climáticas é reconhecido como um "problema de ação coletiva". Um problema de ação coletiva ocorre quando existem fatores que desestimulam as pessoas a se unirem com um esforço conjunto em prol de um mesmo objetivo.

Um exemplo hipotético simples de um problema de ação coletiva envolve trabalhadores que se deslocam no horário de pico. Se eles só podem se locomover de ônibus ou carro, isso dá origem a três cenários, conforme ilustrado nessa imagem:

É mais fácil resolver um problema quando todos nós trabalhamos juntos

Qual opção você acha que é a mais difícil de convencer as pessoas a escolherem?


E qual opção você acha que seria melhor?


Pela imagem, podemos ver que a opção 3 levará ao menor trânsito e significa que, em média, as pessoas chegarão ao seu destino mais rapidamente do que as opções 1 e 2. Entretanto, é difícil persuadir as pessoas a pegar o ônibus em vez do carro porque, em cada um dos três cenários, cada pessoa chegará sempre mais rápido se pegar o carro! Portanto, o problema da ação coletiva é: “como persuadimos os indivíduos a sacrificar o melhor resultado para si mesmos a curto prazo, a favor do melhor resultado para o coletivo?"

Trata-se essencialmente do mesmo problema quando se pensa na resolução das mudanças climáticas — em particular, os países precisam trabalhar em conjunto para evitar um problema de ação coletiva. No entanto, como vamos descobrir durante este curso, fazer com que todos concordem em ajudar não é tão fácil quanto parece!

Solucionar as alterações climáticas vai exigir um trabalho em equipe

As mudanças climáticas se tornam ainda mais complicadas porque, mesmo que às vezes seja caro reduzir as emissões a curto prazo, espera-se que essas alterações prejudiquem tanto o padrão de vida global quanto a economia a longo prazo.

Conclusão

Nós aprendemos sobre a importância da ação global na resolução de um problema mundial. Um país não pode resolver sozinho as mudanças climáticas, motivo pelo qual o trabalho conjunto é tão importante. Os países têm que confiar que os outros também agirão para enfrentar as alterações climáticas, desse modo, cada um deles estará mais disposto a tomar medidas para reduzir as suas próprias emissões e a suportar quaisquer fardos econômicos que isso possa ocasionar temporariamente. Também não se trata só da cooperação governamental — no próximo capítulo, aprenderemos sobre o papel dos outros atores na política climática internacional.

Próximo Capítulo