Têxteis: Podemos tornar a moda sustentável?

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O que são produtos têxteis?

A indústria têxtil lida com a produção e o processamento de fibras e fios e a forma como eles são transformados em tecidos e roupas. Embora isso inclua tecidos domésticos e industriais, focaremos principalmente na indústria da moda, já que ela é responsável por 70% da produção têxtil.

Oitenta bilhões de roupas são compradas todo ano. Quanto estamos comprando a mais hoje, comparado aos anos 2000?


Compramos 60% mais roupas do que comprávamos há 20 anos.

Esse aumento drástico aconteceu por conta do desenvolvimento do que chamamos de "fast fashion", um modelo de negócio que tem como foco os preços baixos e uma moda que muda rapidamente.

O que isso significa para o planeta?

Em média, produzir 1 kg de tecido emite de 20 a 23 kg de gases de efeito estufa, e a própria indústria gera em torno de 4 a 10% das emissões antrópicas globais desses gases, dependendo do tipo de metodologia de cálculo utilizada. Compare isso com o setor da aviação, que produz apenas 2,4% das emissões globais!

Então, de onde vêm essas emissões?

Contribuição das emissões da cadeia de abastecimento da moda

As emissões são produzidas em todos os estágios da existência de um vestuário, desde a aquisição de matérias-primas até o processo de lavagem e descarte. No entanto, 70% das emissões da indústria da moda vem do processo produtivo, durante a produção das fibras e manufatura do vestuário.

A cadeia de abastecimento da moda

Os diferentes estágios da cadeia de abastecimento têxtil ocorrem em diversos países. Por que isso é um problema?


Os produtos têxteis podem ser feitos a partir de diferentes materiais, mas 75% são produzidos com apenas duas fibras. Quais são elas?


Vamos olhar para isso com mais detalhes:

O poliéster é a fibra mais usada, correspondendo a 52,2% da produção global de fibras em 2019. É uma fibra de plástico sintética feita a partir de combustíveis fósseis através de um processo altamente energético. Apenas em 2015, estima-se que a produção de poliéster para tecidos liberou mais de 706 bilhões de quilos de gases do efeito estufa. Isso é equivalente às emissões anuais de 185 usinas de carvão! Até mesmo uma única camiseta de poliéster emite uma média de 5,5 kg CO2eq, quase 30% a mais do que a média das emissões de uma camiseta de algodão.

O algodão é uma fibra natural de origem vegetal, mas qualquer carbono que ele remova da atmosfera à medida que cresce é compensado pelos gases de efeito estufa liberados em sua produção e na aplicação de fertilizantes e pesticidas às culturas de algodão. Estas substâncias químicas podem também vazar para os arredores, prejudicando os ecossistemas locais, reduzindo a qualidade do solo e representando uma ameaça para a saúde humana.

Por que outra razão o cultivo de algodão é um problema?


Embora o algodão produza menos gases de efeito estufa do que o poliéster, ele usa até 20 vezes mais água. Uma única camiseta de algodão precisa de 2700 litros de água para sua produção, quase a mesma quantidade que você bebe em dois anos e meio!

Quantidade de água necessária para produzir uma camiseta de algodão

De modo geral, a indústria têxtil consome aproximadamente 79 bilhões de litros de água todos os anos. E isso não é apenas na produção de fibras: utiliza-se água nos processos de tingimento, acabamento e lavagem também.

Além de consumir muita água, a indústria têxtil é responsável por 20% da poluição industrial das águas. As substâncias químicas utilizadas nos processos de produção e tratamento das fibras, como branqueamento, tingimento e impermeabilização, podem acabar nos corpos de água caso o efluente não seja tratado. Por que isso é um problema?


Visto que 90% das roupas no mundo são produzidas em países de baixa e média renda (devido ao custo mais barato de mão-de-obra), os países em desenvolvimento arcam com a maior parte dessa poluição ambiental, mesmo representando uma porção pequena do consumo de roupas.

O uso destas substâncias químicas também é perigoso para os próprios trabalhadores das fábricas. A exposição diária pode ter consequências significativas para a saúde, e má infra-estrutura política e gestão empresarial em muitos países significam que as normas de segurança e de trabalho muitas vezes não são aplicadas nas fábricas de têxteis. Em 2015, 14 milhões de trabalhadores industriais receberam menos que metade de um salário mínimo essencial para atender às necessidades básicas, e foram registrados 1,4 milhões de acidentes no trabalho.

E quanto aos impactos das roupas após sua compra?

530 milhões de toneladas de CO₂ são emitidas todos os anos devido à lavagem e secagem de roupas. As fibras naturais, como o algodão, precisam de mais energia para serem lavadas, secas e passadas, em comparação com as fibras sintéticas, mas estas também têm outros problemas. Quais são eles?


Quando a roupa é lavada, fios muito pequenos se desprendem, chamados de microfibras. Elas são liberadas na água e podem, um dia, chegar até nossos oceanos. Enquanto as microfibras de materiais naturais se desfazem relativamente rápido, aquelas de materiais sintéticos permanecem por muito tempo e podem ser ingeridas por animais marinhos. Uma única lavagem à maquina de roupas feitas de poliéster pode liberar até 700 000 microfibras de plástico.

Liberação anual de microfibras devido à lavagem de roupas

O que acontece com as nossas roupas quando não queremos mais usá-las?

Quantas toneladas de roupas são jogadas fora todos os anos?


Quase 60% de todas as roupas produzidas são jogadas fora dentro de um ano após sua produção, acabando em aterros ou sendo queimadas. O desperdício também acontece nos estágios primários da cadeia de abastecimento da moda, nos quais de 10 a 20% dos tecidos são desperdiçados ao serem transformados em roupas. Além disso, milhões de dólares em roupas não vendidas são queimados todo ano, liberando gases de efeito estufa e poluição para atmosfera.

Então, o que podemos fazer?

A maioria dos produtos têxteis e das roupas são produzidos em países que dependem principalmente de combustíveis fósseis para energia, como a China. Como a indústria têxtil usa muita energia, passar a utilizar fontes energéticas mais limpas, como a solar, eólica e nuclear, e aumentar a eficiência energética são as melhores maneiras de se reduzir a pegada de carbono dessa indústria.

Redução das emissões ao utilizar energia limpa

E quanto às próprias fibras?

Produzir tecidos a partir de poliéster reciclável libera 37% menos CO₂ do que usando poliéster virgem – produzido a partir de fibras não-recicláveis – além de ser feito principalmente de garrafas plásticas descartadas e outros resíduos plásticos. O poliéster reciclado é capaz de reduzir a poluição de plástico e as emissões de gases de efeito estufa. Embora ainda seja um pouco mais caro de se produzir do que o poliéster virgem, cada vez mais marcas estão se voltando para essa alternativa reciclada.

Emissões provenientes do poliéster reciclado

Hoje menos de 1% das roupas descartadas são efetivamente recicladas em roupas novas. Por quê?


Para resolver estes problemas, as fibras curtas recicladas são frequentemente misturadas com fibras mais longas para produzir roupas duráveis, e tecnologias inovadoras foram desenvolvidas para ordenar automaticamente grandes volumes de têxteis mistos por tipo de fibra.. Será também necessária uma abordagem centralizada da reciclagem de têxteis e o vestuário tem de ser concebido tendo em mente a reciclagem.

Antes de tudo, e para além da reciclagem de fibras, deveríamos começar a utilizar materiais que produzam emissões mais baixas. O algodão orgânico é uma possibilidade, porque não utiliza os pesticidas e fertilizantes nocivos envolvidos na produção convencional de algodão, produzindo cerca da metade do número de emissões.

Mas o algodão não é a única fibra de origem natural. Muitas outras fibras utilizam menos água e terra do que o algodão. Isso inclui outras fibras provenientes de plantas, como o cânhamo, e aquelas que são fabricadas a partir de madeira, como a viscose e o liocel. No entanto, é importante que os materiais usados para essas fibras sejam de origem sustentável e que os produtos químicos usados em seus beneficiamentos sejam reciclados e reutilizados.

As plantas não são a única fonte de fibras naturais. Materiais de origem animal, como a lã e o couro, também são amplamente utilizados nos produtos têxteis. Todavia, além de utilizar muita energia e recursos no processamento e manufatura desses materiais, animais como os bovinos e ovinos precisam ser criados para servirem de fonte dessas matérias-primas. Por que isso é particularmente nocivo ao meio ambiente?


Para evitar isso, start-ups em todo o mundo têm trabalhado para produzir alternativas naturais a essas fibras, principalmente ao couro. Por exemplo, cogumelos cultivados em serragem e resíduos agrícolas, leveduras modificadas e bactérias usadas para fazer kombucha já foram usadas na produção de alternativas ao couro.

Alternativas ao couro

Outras empresas estão trabalhando para produzir fibras sustentáveis enquanto combatem o desperdício de alimentos, um problema responsável por 8 a 10% das emissões globais.

Embora a mudança para fibras mais sustentáveis ajude a reduzir a pegada de carbono da indústria têxtil, as diferenças de impacto ambiental entre diferentes fornecedores de fibras são frequentemente maiores do que entre tipos de fibras.. Dessa forma, é essencial que façamos mudanças dentro da própria cadeia de abastecimento.

Como podemos reduzir o impacto da produção têxtil?

Os processos de tratamento molhados, como descoloração, tintura e impressão, têm o maior impacto ambiental devido a necessidade de muita energia, água e substâncias químicas. Assim, a adoção de métodos de processamento secos, como a utilização de CO₂ pressurizado para a tintura de tecidos em vez de água, pode reduzir significativamente as emissões e a utilização da água, bem como a poluição de esgotos.

A poluição química pode ser evitada melhorando a eficiência do processo de pigmentação. Por exemplo, um pré-tratamento para o algodão chamado ColorZen faz com que as fibras sejam mais receptivas a pigmentos, reduzindo a quantidade de tintura, água e energia necessárias.

Mesmo com estas inovações empolgantes, melhorias significativas exigirão mudanças sistêmicas. Para isso, é necessário que haja transparência na cadeia de abastecimento. A indústria tem de estabelecer normas de trabalho e ambientais mais elevadas, e as preocupações ambientais e sociais têm de ser levadas em consideração em todas as fases. Algumas marcas já estão fazendo mudanças na direção certa, mas os fabricantes, marcas e governos terão de trabalhar em conjunto para haver um impacto significativo.

Para além de compromissos das grandes empresas, precisamos também de mudanças no comportamento dos consumidores. Novos modelos circulares de negócio, como o aluguel de roupas e os serviços de troca, podem ajudar a mudar a percepção de vestuário como sendo facilmente descartável. Tais modelos poderiam satisfazer o desejo dos consumidores por novidades e variedades no seu vestuário, e, ao mesmo tempo, manter roupas em circulação por mais tempo.

Modelos comerciais circulares de moda

Aumentar o tempo de vida de uma peça de roupa é um dos meios mais eficientes de reduzir sua pegada ambiental. Se uma roupa for usada duas vezes a mais antes de ser jogada fora, em quanto isso diminuiria o seu impacto climático?


Revendedores e marcas têm também a responsabilidade de sensibilizar os consumidores para a alta demanda de energia para lavar, secar e passar suas roupas. Reduzir a temperatura e frequência de lavagem, bem como evitar o uso de secadoras, reduzirá as emissões de carbono e o consumo de água ao mesmo tempo que evitará a liberação de microfibras nos nossos corpos d'água.

No entanto, mesmo que adotemos práticas sustentáveis para lavar roupas, temos que lavar as nossas roupas de vez em quando! Para minimizar o nosso impacto no ambiente, podemos garantir que as nossas máquinas de lavar são eficientes em termos energéticos, mudar para fornecedores de energia limpa, e usar filtros de lavagem, como esferas ecológicas, para evitar a liberação de microfibras.

Reduzindo o impacto da lavagem de roupas

Conclusão

A indústria têxtil está apresentando graves impactos tanto no ambiente como no bem-estar humano. Nosso amor pela moda rápida aumentou drasticamente a demanda por roupas baratas e de baixa qualidade que consomem recursos e contribuem significativamente para as emissões globais e produção de resíduos. Embora possamos ver avanços animadores na produção de tecidos sustentáveis e na reciclagem de têxteis, a melhor maneira de reduzir os impactos ambientais e sociais desta indústria é primeiramente reduzir a superprodução e o consumo de itens têxteis.

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