Pontos de inflexão: Por que talvez não sejamos capazes de reverter as mudanças climáticas

19 minute read

Atualizado em

O que é um ponto de inflexão?

Imagine que você está levando uma bola morro acima. Enquanto você anda, se a bola for empurrada para cima, ela vai simplesmente retornar para suas mãos.

No entanto, quando você rolar a bola sobre o pico do morro, ela continuará rolando para longe e você a perderá. Aqui, o topo do morro é o "tipping point" —chamado de ponto de inflexão. Nesse ponto, se você empurrar a bola, mesmo que só um pouquinho, ela rolará para longe de você sem parar!

Analogia do Ponto de Inflexão

Normalmente, os sistemas da nossa Terra se comportam de forma semelhante à bola ao pé do morro — se dermos um pequeno empurrão, mudando-os levemente, eles acabam retornando ao seu estado natural. No entanto, se fizermos com que o nosso sistema terrestre mude muito, aumentando enormemente a quantidade de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera), por exemplo, a bola se moverá para o topo do morro, onde qualquer pequeno empurrão extra causará uma mudança enorme e irreversível. Isso se chama "ponto de inflexão".

Ultrapassar um ponto de inflexão é algo irreversível, porque você não pode retornar ao estado original desfazendo a pequena mudança. Essa pequena mudança adicional desencadeia uma transformação do sistema, que pode ser imediata ou levar anos para acontecer.

Será que já ultrapassamos algum ponto de inflexão?

Até recentemente, os cientistas acreditavam que era improvável que ultrapassássemos um ponto de inflexão climático de escala global neste século. No entanto, hoje existem cada vez mais evidências e consenso de que estamos mais perto do que pensávamos de ultrapassar pontos de inflexão.

Mapa de alguns Pontos de Inflexão

Ponto de inflexão 1: El Niño Oscilação Sul (ENOS)

Normalmente, no sul do Oceano Pacífico há ventos fortes que sopram para o oeste, vindos da América do Sul e em direção à Austrália. Esses ventos levam as águas superficiais quentes para o oeste, fazendo com que águas frias do fundo do oceano venham à superfície na porção leste.

Ventos fortes ocidentais

As águas quentes na superfície do oceano fazem com que o ar suba, formando mais nuvens e chuva no oeste. Com isso, forma-se um fluxo de ar na atmosfera que fortalece os ventos fortes.

Fluxo de ar estável

Então, onde entra o El Niño? Em uma média de 2 a 7 anos, os ventos do oeste começam a enfraquecer devido às mudanças incomuns na distribuição de pressão na superfície do Oceano Pacífico ao sul.

Ventos de oeste mais fracos

O que você acha que acontece a seguir?


Devido aos ventos mais fracos, há um impulso menor de água quente para o oeste, o que ocasiona um fluxo menor de água fria para o leste, fazendo com que águas mais quentes apareçam no meio do Oceano Pacífico.

Fluxo de ar do El Niño

Isso é o El Niño e ele ocasiona mudanças com impactos globais no vento e nos padrões do movimento de ar na atmosfera. Essas mudanças incluem um aumento nas secas na Indonésia, Índia e algumas partes do Brasil, além do aumento nas inundações no Peru. Durante o evento do El Niño de 2015/2016, mais de 60 milhões de pessoas tiveram dificuldade para conseguir alimentos suficientes. O mapa abaixo mostra os padrões meteorológicos durante um evento do El Niño:

Impacto do El Niño na Precipitação

Se o aquecimento global fizer com que os oceanos absorvam mais calor, a camada de água superficial quente pode ficar tão espessa que o ENOS ultrapassará um ponto de inflexão. Com isso, os eventos do El Niño podem ficar permanentemente mais severos e frequentes. É provável que o aquecimento global necessário para instigar o ENOS a atravessar o ponto de inflexão aconteça neste século e que os efeitos sejam sentidos pelos próximos milhares de anos.

Assim como o aumento das inundações no Peru, o El Niño também aumentará as secas na Amazônia. Isso faz com que seja ainda mais provável que se ultrapasse o próximo ponto de inflexão que estudaremos.

Ponto de inflexão 2: Perda da Floresta Amazônica

O que você acha que fará com que a Floresta Amazônica ultrapasse o ponto de inflexão?


A Amazônia é tão grande que ela libera uma quantidade gigantesca de água para a atmosfera - mais de 8 trilhões por ano! Isso acontece durante um processo chamado fotossíntese, durante o qual as árvores combinam água, que vem da terra, e CO₂, da atmosfera, para fazer seu alimento. Para captar o CO₂ da atmosfera, as árvores tem que abrir buraquinhos em suas folhas, mas isso quer dizer que um monte de água escapa. Essa água adentra na atmosfera e transforma-se em nuvens, o que mantém o ar fresco e cria mais chuva para que mais árvores cresçam.

Árvores e ciclo da água

Assim, com uma redução considerável de árvores, menos água entra na atmosfera, fazendo com que áreas da Amazônia se tornem cada vez mais secas conforme o ciclo hidrológico se altera. Isso já está acontecendo nas regiões sul e leste da Amazônia, onde as estações secas têm se tornado mais longas nas últimas duas décadas, pelo menos.

O aquecimento global se intensificará com essas mudanças que, junto ao desmatamento, levarão ao aumento das queimadas, das secas regionais e das inundações, além de destruir a biodiversidade.

A Amazônia ultrapassará o ponto de inflexão quando o ciclo da água estiver tão danificado que algumas áreas da floresta deixarão de produzir chuva suficiente para que uma floresta tropical se desenvolva. Ela será permanentemente perdida e transformada em áreas de savana degradadas.

Ponto de Inflexão da Amazônia

Se avaliarmos o ponto de inflexão somente de acordo com o aquecimento global, muitos estudos sugerem que as temperaturas teriam que aumentar em 4 °C para fazer com que as áreas central, sul e leste da Floresta Amazônica ultrapassassem os seus pontos de inflexão.

Todavia, ao levarmos em consideração os efeitos de seca provocados pelo desmatamento, acredita-se que o ponto de inflexão pode acontecer ainda mais cedo, com entre 20 e 40% de desmatamento. Isso é especialmente preocupante, visto que já derrubamos 17% da Floresta Amazônica desde 1970!

Ponto de inflexão 3: O desaparecimento do gelo no Oceano Ártico no verão

Você acha que a quantidade de gelo no Oceano Ártico permanece constante durante o ano?


Não! Na verdade, todo ano, em torno de 9 milhões de km² (ou aproximadamente metade da cobertura total de gelo) é perdida entre março e setembro, voltando a congelar durante o inverno.

Contudo, é muito provável que a quantidade de gelo existente em cada mês do ano tenha diminuído entre 1979 e 2018. O mês de setembro foi o que apresentou a mudança mais significativa na cobertura de gelo nos últimos mil anos, perdendo aproximadamente 83 000 km² por ano desde 1979! Você pode observar a importância disso no gráfico abaixo!

Diminuição dos Bancos de Gelo no Ártico no Mês de Setembro

O que você acha que está fazendo com que o gelo do Oceano Ártico derreta mais do que o esperado?


O aumento do derretimento de gelo é causado pelas altas temperaturas do verão e por uma cadeia de reações. Isso significa que o gelo, ao derreter, causa ainda mais derretimento. Com o derretimento, a superfície oceânica fica descoberta e, por ser mais escura do que o gelo, ela absorve mais luz solar. Assim, quanto mais o gelo derrete, mais quente fica a superfície oceânica, aumentando a probabilidade de mais derretimento de gelo!

Reações do derretimento do gelo

Os bancos de gelo no Ártico ultrapassarão um ponto de inflexão quando as temperaturas se tornarem tão altas que ficará impossível frear a expansão de seu derretimento. Isso levará a um ponto no futuro em que não haverá mais bancos de gelo no Ártico durante o verão, e esse é um dos pontos de inflexão mais repentinos e prováveis encontrados nas previsões dos modelos climáticos.

Os cientistas preveem que há entre 10 e 35% de chance de que um aumento de 2 °C na temperatura global trará, inevitavelmente, verões sem gelo até 2100. Para piorar a situação, a recente redução dos bancos de gelo no Ártico tem sido ainda mais alta do que as previsões dos modelos climáticos; ou seja, o ponto de inflexão para o gelo nos verões pode ser ultrapassado ainda antes do previsto. Alguns cientistas acreditam que já o ultrapassamos!

Essa diminuição de gelo no Ártico prejudicará significativamente a vida selvagem local e a garantia de água e comida para os povos nativos. Além disso, ela pode afetar os padrões meteorológicos em todo o hemisfério norte, impactando muito mais pessoas. Contudo, os cientistas não têm total certeza a respeito das dinâmicas desse tipo de relação.

Ponto de inflexão 4: Derretimento dos mantos de gelo na Antártica e na Groenlândia

Outro ponto de inflexão relativo ao gelo é o derretimento dos mantos de gelo na Groenlândia e na Antártica. Os mantos de gelo são áreas enormes de gelo que ficam nas superfícies continentais. Se perderem muito gelo, eles ultrapassarão um ponto de inflexão a partir do qual será impossível frear o derretimento do gelo restante. Como consequência, o nível do mar aumentaria em muitos metros nas próximas centenas de anos.

Nós aprofundaremos mais esse assunto no capítulo sobre o aumento do nível do mar!

Será que podemos confiar nas previsões dos pontos de inflexão?

Há pouco consenso sobre se algum ponto de inflexão será ultrapassado antes de 2100 devido à falta de dados e à dificuldade que os modelos climáticos enfrentam ao representar esses processos. Portanto, a previsão do cruzamento de um ponto de inflexão específico contém muita incerteza.

Como você acha que devemos melhorar as previsões?


Embora hoje em dia os melhores modelos climáticos consigam considerar mudanças abruptas no clima, alguns processos ainda não são explicados. Por exemplo, alguns modelos não incluem as reações que causam a destruição dos mantos de gelo ou aquelas que danificam a vegetação.

É provável que as reações por conta dos mantos de gelo e da vegetação tenham um impacto significativo nos pontos de inflexão no futuro, pois suas respostas são muito lentas para vermos resultados imediatos. A exclusão desses fatores nos modelos significa que podem existir ainda mais pontos de inflexão terrestres.

Quanto mais reações, mais pontos de inflexão

Conclusão

Muitos cientistas defendem que 2 °C de aquecimento global é um limite seguro para prevenir que os pontos de inflexão sejam ultrapassados.

No entanto, mais recentemente, cientistas líderes na área disseram que devemos procurar manter o aquecimento global bem abaixo de 2 °C para evitar ultrapassar quaisquer pontos de inflexão. Na verdade, ao testar 37 pontos de inflexão em potencial, os modelos climáticos previram que 18 deles aconteceriam abaixo de 2 °C! (Lembre-se, já aquecemos nosso planeta em 1,1 °C!)

Esse perigo se intensifica porque muitos especialistas acreditam que, na maioria dos casos, assim que um ponto de inflexão for ultrapassado, é muito provável que outro também o seja, o que significa que inúmeros pontos de inflexão podem acontecer ao mesmo tempo. É como dar início a uma reação em cadeia!

Assim, os cientistas apelam por uma ação internacional imediata contra práticas não sustentáveis (como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento) para evitar os perigos dos pontos de inflexão.

Próximo Capítulo