Agricultura: Mudanças na agropecuária para se adaptar às alterações climáticas

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A produção de alimentos está ameaçada pelas mudanças climáticas. Nosso sistema agropecuário é fortemente dependente do nosso ambiente físico e, mesmo que os produtores rurais estejam acostumados às variabilidades climáticas, muitos já estão relatando dificuldades devido às condições meteorológicas e aos padrões sazonais imprevisíveis. Essas variações climáticas, por sua vez, alteram a severidade e a distribuição de ervas daninhas e doenças nos cultivos. Para aumentar ainda mais a pressão nos nossos sistemas de produção de alimentos, estima-se que a população humana ultrapasse 9,7 bilhões até 2050 (veja o capítulo "Alimentos e o Clima", no nosso curso Alimentos e Agropecuária!). Essa é uma clara indicação de que precisamos agir rápido.

Por que a agricultura precisa se adaptar ao clima modificado

Quanto a produtividade agrícola poderia mudar (% de aumento ou redução) se os produtores rurais, em resposta às mudanças climáticas, decidissem adaptar seus métodos agropecuários?


Sem adaptação, as mudanças climáticas poderiam reduzir a produtividade dos cultivos no mundo entre 5 e 30% até 2050. Por outro lado, os produtores rurais que se adaptarem alterando as épocas de plantio, variedades dos cultivos e a gestão do abastecimento hídrico poderão aumentar a produtividade entre 7 e 15% quando comparadas às taxas de produção atuais. Contudo, é importante lembrar que, conforme o planeta continua aquecendo (entre 1 e 2 °C em regiões temperadas e 1,5 a 3 °C em regiões tropicais), a adaptação fica mais difícil e gera menos benefícios.

Variação de rendimento prevista com e sem adaptação

Como poderia ser a adaptação?

Ao redor do mundo, a agropecuária pode aparecer de várias formas diferentes - desde a colheita de framboesas em brejos até a produção leite de camelos. Isso quer dizer que existe uma grande variedade de maneiras às quais os produtores rurais podem se adaptar. Mesmo mudanças simples podem fazer uma diferença. Por exemplo, vinhedos franceses agora produzem suas uvas 30 dias mais cedo do que faziam 50 anos atrás e 41% de viticultores europeus estão dispostos a plantar novas variedades de uvas para melhor adaptar-se ao clima.

Os tempos de colheita estão mudando devido às alterações climáticas

A adaptação agrícola também pode envolver mudanças muito maiores que afetam a forma como a administração da fazenda é feita — desde a transição para métodos sustentáveis de gestão da terra até a compra de seguro para os cultivos. Grandes ou pequenas, as opções adaptativas ajudam a tornar a fazenda mais resiliente às mudanças, relacionadas ao clima ou não.

Como é a adaptação para diferentes tipos de agricultura

Quando devemos começar?

Desde que os humanos começaram a plantar, as adaptações fazem parte da vida. Adaptar-se implica em reagir às diferentes mudanças ambientais e sociais. Quando se trata de alterações climáticas, podemos usar uma abordagem semelhante ao testar soluções agora e melhorá-las conforme aprendemos. Contudo, em locais como a África Subsaariana, prevê-se que os sistemas agropecuários vão ultrapassar os pontos de inflexão nos próximos 5 a 20 anos. Os pontos de inflexão representam os limites que, quando ultrapassados, resultam em mudanças abruptas e rápidas nas condições ambientais. Se quisermos evitar esses pontos sem retorno, nós provavelmente precisaremos fazer modificações mais imediatas e transformadoras.

Monitorando a Adaptação

Quais são os obstáculos à adaptação?

Quais desafios você acha que os produtores rurais enfrentam ao se adaptar às alterações climáticas? Marque as alternativas que você acredita que representam os maiores obstáculos.


A barreira mais evidente à adaptação é o custo. As Nações Unidas estimam que, até 2030, custaria de 11,3 a 12,6 bilhões de dólares para adaptar a agricultura (incluindo a silvicultura e a pesca) às mudanças climáticas. Alguns cientistas acreditam que esse número poderia ser de 2 a 3 vezes maior!

Existem outros desafios também, como a falta de conscientização pública, a concorrência sobre o uso de terras entre indústrias e a tecnologia disponível para ajudar os produtores rurais a se adaptarem.

Como incentivamos a adaptação?

1. Cientistas insanos ou pesquisas proveitosas?

Existe um campo inteiro na ciência dedicado ao aprimoramento das práticas agrícolas, reduzindo o impacto ambiental da agropecuária e garantindo que haja alimento suficiente para todos. Se desejarmos que esses objetivos se concretizem, precisaremos financiar essa ciência. Realmente, para cada dólar americano investido em pesquisa na adaptação agrícola, regiões em desenvolvimento podem lucrar de US$ 3,70 a US$ 5,20 a longo prazo.

Os cultivos derivados da Engenharia Genética (EG) são um excelente exemplo de como a pesquisa agrícola pode nos ajudar na adaptação às mudanças climáticas.

Você consegue identificar qual destes cultivos resistentes ao clima não existe?


A tecnologia da EG produziu cultivos que conseguem suportar temperaturas mais elevadas, escassez de água e surtos de doenças. Além de apresentar esses novos tipos de cultivos, a engenharia genética pode aumentar a diversidade genética de uma espécie ao introduzir novas variantes de genes específicos.

Os OEGs podem ter diferentes propriedades

As pesquisas baseadas em dados também oferecem soluções promissoras — desde o desenvolvimento de previsões meteorológicas refinadas até mapas de solo mais detalhados —, que usam informações mais precisas e em tempo real para ajudar os produtores rurais a decidirem sobre a melhor forma de se adaptarem. Essas pesquisas são muito úteis visto que, quanto mais informações tivermos para basear nossas decisões, mais propensos estaremos a fazer as escolhas adaptativas corretas.

2. Governança e políticas

A ação governamental faz parte do que chamamos de "abordagem descendente". Ainda que comunidades e empresas possam exercer pressão para mudança, quando se trata de adaptação, os governos ainda estão no comando das operações. Isso porque são eles que criam as leis e políticas que, por sua vez, facilitam (ou dificultam) a adaptação dos produtores rurais.

Será necessária uma abordagem colaborativa para uma adaptação adequada

Os governos também são importantes quando se trata de financiar a agricultura. Entre 2014 e 2016, os governos investiram um total de US$ 568 bilhões por ano no setor agrícola. Agora, mais do que nunca, esse apoio financeiro precisa levar em consideração os custos para adaptar a maneira que produzimos.

Então, que políticas específicas poderiam ajudar? Desde a década de 1990, o foco tem sido em planos em que os governos pagam os gestores da terra para melhorar a saúde dos seus ecossistemas locais. Estudos de caso demonstram que definir de maneira clara os resultados ambientais desses regimes (por exemplo, melhor qualidade da água, maior biodiversidade) reduz sua probabilidade de fracasso. Esses tipos de políticas, quando eficazes, ajudam os produtores rurais a se tornarem mais resilientes às mudanças climáticas.

3. Economia

Planos governamentais não são a única maneira de financiar adaptações às mudanças climáticas: outras organizações, incluindo bancos e empresas privadas, também estão procurando maneiras de ajudar as pessoas a se adaptarem.

O programa Africa Disaster Risk Financing cumpre essa função ao identificar os riscos climáticos e trabalhar para minimizar as perdas financeiras provenientes dos desastres naturais. Isso funciona parcialmente através de um sistema de seguro, que ressarce os produtores rurais caso ocorram desastres relacionados ao clima. Além de aderir a planos semelhantes, os produtores rurais também podem se adaptar ao encontrar novas formas de ganhar dinheiro sem utilizar a agropecuária tradicional. Opções possíveis incluem o turismo ou a organização de projetos de energia renovável.

A diversificação também é uma possível estratégia de adaptação para os produtores rurais

4. Compartilhar as boas experiências — conte aos seus amigos!

Em um nível individual, muitos produtores rurais estão enfrentando problemas climáticos através de uma abordagem que utiliza "grassroots" ou movimentos de raiz. Isso funciona por meio de uma rede de contatos, onde produtores vizinhos compartilham soluções e aprendem uns com os outros.

Na Nova Zelândia, alguns produtores rurais agem de forma exemplar e ajudam a influenciar outros a se adaptarem; e no Níger, reflorestamentos liderados por agricultores resultaram em 10 vezes mais cobertura arbórea (para combater os efeitos das cheias repentinas) além de melhorar a produtividade e a fertilidade do solo.

A amizade entre os produtores rurais é crucial para a adaptação agrícola

O próximo passo é compartilhar essas ideias com pesquisadores e organizações, tanto a nível nacional quanto internacional, a fim de garantir que os produtores rurais façam parte dos processos de tomada de decisão que afetam suas terras e sua subsistência.

De que outra forma podemos aumentar a produtividade agrícola para compensar as perdas relacionadas ao clima?


Alguns grupos — especificamente mulheres, jovens e povos indígenas — são afetados de forma desproporcional quando o ambiente em que vivem é mal administrado. Para combater isso, estudos mostram que incluir esses grupos nas tomadas de decisões pode levar a melhores resultados para as pessoas e o planeta. Por exemplo, o desmatamento na Amazônia é de 2 a 3 vezes menor em áreas onde os povos indígenas possuem direitos legais à suas terras. Assim, podemos nos adaptar reconhecendo legalmente os direitos indígenas e utilizando os seus conhecimentos para combater as mudanças climáticas e a ameaça à segurança alimentar futura. Fora dessas comunidades, empoderar as mulheres através de mais treinamentos e recursos poderia aumentar a produtividade agrícola nos países em desenvolvimento de 2,5 a 4%, o que seria suficiente para alimentar mais de 100 milhões de pessoas!

A Diferença de Rendimentos por Gênero

E agora?

Aprendemos que precisamos da ajuda de pessoas, tecnologia e pesquisa para adaptarmos nossa agricultura. Além de ações governamentais e bancos internacionais, é necessário garantir que os produtores rurais possam opinar sobre como produzimos os alimentos, agora e no futuro. Ao combinar pesquisa científica com técnicas de agropecuária local, conseguimos compreender melhor como apoiar uma transição tranquila para uma agropecuária mais resiliente ao clima.

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